Confissões de um abobado na Alhambra
Eu pretendia começar o relato da viagem falando sobre a cidade de Granada. Na verdade, eu até comecei a fazer isso, contando da nossa chegada e dos primeiros pontos turísticos que a gente visitou. Mas aí, chegou o momento de narrar a visita à Alhambra e pronto. Escrevi, escrevi e escrevi tanto que o post foi ficando enorme – bem naquele estilo tiagal old times – e eu resolvi fazer diferente. Vou começar fazendo um post só sobre a Alhambra para, então, apresentar Granada.
Eu precisava fazer essa divisão porque, do contrário, eu correria o risco de ninguém chegar até o final do texto… se é que alguém ainda me lê! (alô? tem alguém aí? dê sinal de vida!)
O fato de eu ter ligado o modo falador e ter escrito linhas e mais linhas sobre a Alhambra não é nenhum acaso. A Alhambra é o tipo de lugar que me encanta. Uma construção histórica medieval, que sobrevive majestosa no alto de uma colina desde o século XIV, cercada por jardins e palácios que, de tão lindos e suntuosos, parecem verdadeiras obras de arte. Parecem, não. São obras de arte legadas pelo antigo Império Al-Andaluz que sobreviveram incólume à reconquista cristã do final do século XV e que marcam com a mais pura estética islâmica uma cidade fincada na Europa.
Eu olhava para as inscrições em árabe lançadas nas paredes dos palácios, os arcos em forma de ferradura sobre colunas minuciosamente adornadas em gesso, os arabescos e mosaicos em cerâmica infinitos que grafam as paredes e acionava imediatamente aquele lugar do meu cérebro que associa essas imagens ao Marrocos, à Turquia e ao Irã (sim, já deu pra ver que eu não entendo nada de arquitetura islâmica!).
“Ah, Tiago, mas você é um abobado, se encanta com qualquer coisinha”. Sim, reconheço. Mas não fosse esse encantamento pelas pequenas e, principalmente, pelas grandes coisas, o Rotas talvez nem sequer existiria.
Foi uma sensação parecida com a que eu tive no Real Alcazár de Sevilha, como eu contei aqui. E se naquela ocasião eu já havia me encantado tanto com “um lugar em que todo e qualquer superlativo se faz necessário“ (palavras minhas), imagina o que eu não senti vendo o Alcazár de Sevilha elevado à máxima potência da Alhambra.
A Alhambra é, talvez, o maior símbolo da região da Andaluzia e, não por acaso, um dos monumentos históricos mais visitados da Espanha. Declarado patrimônio da humanidade pela UNESCO, ela foi construída ao longo dos séculos XIII e XIV pelos sultões nasridas para se proteger do avanço da retomada dos Reis Católicos sobre a região.
Lá dentro, palácios, jardins, aparatos militares e ruínas do que já foi uma verdadeira cidade sobrevivem ao passar dos anos. A cada novo ângulo é um “uau”, “minha nossa senhora” e “que lugar é esse?” anunciado externa ou internamente!
E, claro, vários… vários flashs!
Eu ia até dizer que acho impossível não se impactar com a beleza e a imponência da Alhambra… até lembrar que, hoje em dia, tem gente que só se encanta com vídeos curtos no celular (sim, o Tiago ranzinza ainda mora em mim!). Mas se você for um daqueles que ainda não perdeu o encantamento pelas coisas do mundo real, vai ser difícil não se surpreender pela grandiosidade, pela engenhosidade, pelo nível de detalhes e pela suntuosidade daquele lugar.
Minhas expectativas já eram altas para conhecer a Alhambra e, mesmo assim, elas foram superadas!
Enquanto eu caminhava, eu reverenciava cada homem e mulher em suas variadas facetas de sultão, engenheiro, arquiteto, matemático, artista, paisagista, jardineiro, decorador, pedreiro, bombeiro, encanador, pintor, vidraceiro, gesseiro e quem quer que tenha tido a mínima participação no planejamento e construção daquela obra prima da humanidade. E também agradecia aos Reis Católicos, Isabel e Fernando, por preservarem – quase – intacto aquele monumento, legando-o à posteridade.
Que maravilha a Espanha e, em particular, Granada tem!
Tal qual o Alcazar de Sevilha, a Alhambra é um lugar de superlativos até mesmo nos pequenos detalhes. Pensar no quão meticuloso foi o trabalho de entalhe de cada um daqueles arabescos e mosaicos que enfeita colunas, portas, janelas, paredes, tetos e pisos dos Palácios Nasridas e na incrível obra de arquitetura e engenharia que se esconde por baixo de tudo aquilo que a gente consegue ver, dando real funcionalidade a uma construção que, para nós, hoje pode parecer ser apenas arte, nos faz refletir sobre o que nós mesmos estaremos legando para a humanidade do futuro. (parei aqui, juro!)
Durante a nossa visita, nós seguimos o percurso mais recomendado: Jardins do Generalife > Palácio Carlos V > Palácio Nasridas > Alcazaba. A partir do pavilhão de acesso, e só seguir à direita para começar o deslumbre com os magníficos jardins ao redor do Palácio Generalife.
Dentro desse primeiro palácio, a gente tem um vislumbre do que nos espera lá nos Palácios Nasridas.
Mas é bom guardar a baba para o final. Acredite.
A rigor, os jardins e o Palácio do Generalife ficam fora da muralha que cerca o complexo da Alhambra. Eles foram construídos para funcionar como uma espécie de residência de verão dos sultões e aplacar o calor sórdido da região nessa época do ano.
Por isso, há tanta cobertura verde, fontes, piscinas e canais de água ao redor, refrescando o ambiente.
Depois de circular a área do jardim e do Palácio Generalife, a gente seguiu caminhando para a Medina, onde começam as ruínas da antiga cidadela construída dentro das muralhas.
Mais jardins e vários artefatos arqueológicos que contam a história da Alhambra.
Daí a gente seguiu até a parte “moderna” da Alhambra: a Igreja de Santa Maria e o… cof cof… monstrengo renascentista… cof cof… palácio construído pelo Imperador Carlos V no século XVI após a reconquista de Granada.
(Minha opinião sincera e impopular: em qualquer outro lugar do mundo aquele palácio renascentista seria uma obra prima. Mas na Alhambra ele destoa. Perto daquela jóia islâmica, ele parece feio. Parei!)
Depois de me perguntar porque cargas d’água alguém inventou de construir um palácio renascentista bem no meio de uma construção de origem islâmica, chegara a hora de se preparar para o ponto alto da visita, a entrada no Palácio Nasridas.
Aqui um disclaimer. Ao comprar o ingresso, você precisa decidir a hora de entrada na sua atração principal: o Palácio Nasrida. A visitação ali é controlada e o acesso se dá com hora marcada. 15 minutos antes do horário marcado você se apresenta numa fila na entrada do Palácio e aguarda a liberação para entrar na maior jóia da arquitetura islâmica de Granada.
Eu programei a nossa entrada no Palácio para as 11h. Como vi que a duração média da visita ao conjunto é de 3 horas, nós chegamos lá às 09h e, mesmo percorrendo com bastante calma as demais atrações, conseguimos estar na fila a tempo da entrada no Palácio.
Por isso, eu recomendo programar a sua entrada no Palácio Nasridas para 2 horas depois do horário que você pretende chegar na Alhambra.
Bom, aí você já pode imaginar o quão abobado eu fiquei ao entrar no Palácio. Depois de tudo o que já falei no início do post, eu vou te privar de novos comentários piegas.Vou repetir apenas que, sim, por maiores que fossem as minhas expectativas para conhecer a Alhambra, elas foram magnanimamente superadas!
É chocante o nível de beleza daquele lugar!
Pronto, parei.
Tecnicamente, são 3 palácios construídos por sultões diferentes. Mas não dá para ter a percepção de mudança de um palácio para o outro. Pelo menos, eu não tive (talvez, o meu estado de êxtase tenha me impedido de perceber isso).
Diz-se que, na magnífica Sala dos Embaixadores, a Rainha Isabel recebeu Cristóvão Colombo para dar o aval à sua famosa viagem às Índias que resultou no “descobrimento” das Américas.
Não precisa refletir muito para entender porque aquela era a sala escolhida pelos sultões para abrigar o trono e realizar as recepções oficiais e encontros com “embaixadores” de outros lugares. Ali é realmente o lugar certo para expor o refino estético e a imponência de uma arquitetura que só alguém muito poderoso e rico poderia ter.
A saída dos Palácios Nasridas fica bem em frente à entrada do pátio do El Partal, onde o seu famoso pórtico impressiona.
Seguindo reto, você encontra uma sequência de belos jardins para amortecer a caminhada, sentado em algum banco.
Depois do êxtase, nós circulamos a área do Palácio Carlos V para seguir digerindo o que vimos com as vistas incríveis de Granada que a Alcazaba proporciona.
A Alcazaba é a antiga fortaleza militar, estrategicamente posicionada para defender o complexo.
Daí porque das suas torres você tem as vistas panorâmicas mais bonitas da cidade de Granada.
Bom, para terminar esse post que, como previsto, já se alonga por demais, algumas informações úteis para a sua visita.
Nós visitamos a Alhambra na manhã do dia seguinte à nossa chegada em Granada. Seguindo a recomendação de todo mundo que vai até lá, eu garanti as entradas logo no início do planejamento da viagem, tão logo a gente definiu o roteiro e os dias que ficaríamos em Granada. Na alta temporada, os ingressos costumam esgotar com 3 a 4 meses de antecedência. Embora a gente não estivesse no período de maior movimento (dezembro), eu preferi não arriscar. E recomendo que você faça o mesmo.
Para ir até lá, é bem fácil. Basta pegar o microônibus C32 na Plaza Nueva (passagem a 1,60 euros por pessoa) que sobe direto até a colina da Alhambra e te deixa praticamente na porta de entrada. O pagamento do ticket pode ser feito por cartão no totem que fica dentro do ônibus. Bem simples.
Na hora de ir embora, saia pela Puerta de La Justicia, que você sai bem em frente a um ponto de parada desse ônibus.
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